Sobre o erro de se dizer que um artigo está "aceito com correções"

Pedro V. Eisenlohr, em 04/03/2017
 
 
Tenho visto crescer, particularmente no Brasil, um erro conceitual e ético no âmbito dos artigos científicos. Antes de tratar especificamente desse erro, convém uma introdução sobre o processo de avaliação por pares. Um artigo científico passa por muitas etapas antes de ser aceito para publicação em um bom periódico. Antes mesmo de ser submetido, o caminho é árduo. Tudo começa com uma ideia, uma inquietação, uma dúvida. Um "Como?", um "Por quê?" ou até mesmo um "Existe isso?" é o ponto inicial para que um trabalho científico comece a ser desenvolvido. Desse ponto até a submissão do trabalho à revista um longo processo decorre, o qual envolve muita leitura crítica para embasamento teórico, delineamento amostral ou experimental, trabalho de campo e/ou de laboratório, tabulação e análise estatística dos dados e interpretações cuidadosas sobre o significado e impacto dos resultados obtidos. Quando finalmente o trabalho é submetido a uma revista científica da área, começa a expectativa dos autores para que ele seja aceito para publicação.
 
Quando o artigo chega à revista, ele é, via de regra, avaliado pelo Editor-Chefe, podendo ser recusado sumariamente por não se adequar ao estilo da revista, por não se enquadrar nas normas da revista ou, o que vem se tornando cada vez mais comum, simplesmente por não apresentar mérito científico suficiente ou potencial para ser amplamente citado. Toda revista que almeja crescer no mercado deve ter artigos altamente citados, principalmente dentro do universo da Web of Science. Não por acaso, existem revistas de alto impacto que chegam a reprovar mais de 70% dos artigos que são submetidos para análise já nesse primeiro filtro! Vencer essa etapa já é um bom sinal, mas existem muitas outras pela frente. A próxima é a análise do Editor de Área ou Editor Associado. Este também pode - por que não? - recomendar a recusa do trabalho. Uma afronta ao Editor-Chefe? De modo algum: simplesmente foi uma recomendação feita por um expertise da área, com uma análise diferente da que havia sido feita pelo Editor-Chefe. O Editor de Área ou Editor Associado costuma ter uma visão mais profunda do assunto específico tratado no manuscrito e, por esse motivo, poderá captar falhas metodologicas e/ou conceituais que o Editor-Chefe não conseguiu detectar.
 
Se o Editor de Área ou Editor Associado decide que o manuscrito é adequado para aquela área específica do conhecimento, revisores ad hoc são convidados para analisar o trabalho. Com base nos pareceres desses revisores e na sua impressão sobre a relevância de tais pareceres, o Editor de Área faz a sua recomendação sobre o aceite ou não do trabalho. Essa recomendação chega ao Editor-Chefe, o qual é o responsável pela decisão final. Ter aceite já na primeira rodada de avaliação é algo raríssimo. O mais comum é um trabalho ser (i) recusado ("Reject"), (ii) recusado com convite à ressubmissão ("Reject & Resubmit"), (iii) avaliado como necessitando de amplas correções ("Major Revision") ou (iv) avaliado como necessitando de pequenas correções ("Minor Revision"). Os termos em inglês são usados por várias editoras de renome, mas não são ubíquos na ciência. Aqui chegamos ao ponto principal do meu texto: as opções (iii) e (iv) têm sido cada vez mais interpretadas como "artigos aceitos com correções". Isso não existe! Sempre que houver correções a se fazer, o artigo ainda não está aceito - e pode, inclusive, vir a ser rejeitado, pois cada etapa da avaliação de um manuscrito é, em boa medida, independente da outra. Eu, por exemplo, já recebi um "Major Revision" em uma etapa inicial de avaliação, mas na etapa seguinte, mesmo efetuando todas as correções solicitadas, recebi recusa do manuscrito. Isso ocorreu porque, na opinião do editor, o trabalho não atingiu o nível de qualidade requerido pela revista. O editor estava errado? Claro que não! É prerrogativa dele decidir se o manuscrito está ou não adequado naquela fase específica da avaliação.
 
Por fim, cabe nos questionarmos o porquê de cada vez mais pesquisadores incorrerem no erro conceitual acima, inclusive fazendo constar do seu Currículo Lattes que o trabalho está aceito, mesmo não estando. Aqui, podemos dividir esses pesquisadores em dois grupos: o grupo que "cresceu" com ideias equivocadas sobre o processo de avaliação de manuscritos e que, por absoluto desconhecimento, acredita que de fato seu trabalho esteja aceito, mesmo não estando; e o grupo que, conscientemente, adota um desvio ético para se favorecer de alguma forma. Ambos devem se corrigir prontamente - e corrigir seus Lattes - para que não fiquem conhecidos na ciência por deméritos como esse. Quando, então, eu posso colocar no meu Lattes que meu artigo está aceito? Quando você receber formalmente uma mensagem do Editor-Chefe dizendo, com todas as letras, que o artigo está aceito. Simples assim.

 

 


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